Robalo em cativeiro já é realidade

Após a experiência com o bijupirá – o primeiro peixe de água salgada a ser produzido no País -, a pesquisa brasileira dá mais um passo importante, com o domínio da tecnologia de produção de robalo em cativeiro. O robalo é um peixe marinho extremamente apreciado, porém cada vez mais raro por causa da pesca predatória.

Há cerca de 15 anos, os pesquisadores do Instituto de Pesca (IP-Apta), da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, Idili da Rocha Oliveira e Pedro Carlos da Silva Serralheiro, estudam técnicas de reprodução, larvicultura e a engorda do robalo-peva (Centropomus parallelus) no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento do Litoral Sul, em Cananeia (SP), e, agora, com o aperfeiçoamento da tecnologia, já podem difundi-la aos interessados. “Temos condições de treinar e capacitar aquicultores.”

Segundo os pesquisadores, o robalo tem como principal atrativo o alto valor comercial. “A demanda é maior do que a oferta, por isso o mercado para quem investir na criação é garantido“, afirmam. Outro aspecto favorável à criação do robalo em cativeiro é o fato de a espécie ser bastante resistente ao manejo. “Além disso é muito versátil, já que, na fase da engorda, se adapta em ambiente de água salobra, salgada ou doce.”

Dois pacotes tecnológicos poderão ser repassados aos interessados: a engorda de alevinos de robalo aos piscicultores de maneira geral e a produção de alevinos em laboratório. Nesse caso, conforme os pesquisadores, como se trata de processo complexo e custoso, a tecnologia de reprodução deve interessar a grandes empresas do setor ou a outras instituições de pesquisa.

SÊMEN CONGELADO
No laboratório do IP em Cananeia usa-se a técnica de crioconservação de sêmen, em que o sêmen é retirado do macho e os espermatozoides são congelados. Quando a desova não ocorre naturalmente, é feita a indução com hormônios. As larvas, extremamente delicadas, alimentam-se de rotíferos e artêmias, organismos-alimentos que são produzidos no laboratório. “Com a crioconservação, temos disponível, continuamente, sêmen de qualidade para a inseminação de óvulos, o que amplia a oferta de alevinos”, explicam.

Conforme os pesquisadores, o domínio da tecnologia de reprodução do robalo traz, ainda, a possibilidade de ter o peixe o ano inteiro. Na natureza, ao contrário, o período de reprodução da espécie limita-se a três a quatro meses, no verão. “Avaliamos, por mais de dois anos, o efeito da luz e das condições controladas de temperatura na maturação e desova do robalo e a conclusão é a de que é possível criar as condições ideais para o robalo se reproduzir. É como se fosse verão o ano inteiro.” Os pesquisadores do IP também dominaram técnica que permite a mudança de sexo do robalo. “Quanto menor a intensidade da luz, maior a chance de termos lotes apenas de fêmeas”, diz Serralheiro. “As fêmeas ganham peso mais rápido.”

Idili e Serralheiro trabalham com 20 casais de robalo, instalados em 4 tanques com capacidade de 5 mil litros cada. O moderno sistema de tratamento de água inclui filtro biológico, ozonizador e um equipamento de recirculação de água que impede a descarga de qualquer tipo de efluente – fezes, urina e restos de ração – no ambiente. Em termos de densidade, já foi avaliada população de até 80 indivíduos por metro cúbico de água e os resultados foram bom crescimento e mortalidade zero.

A alimentação dos peixes, carnívoros, está sendo aperfeiçoada, porque não há, no País, ração específica para peixes marinhos. “Estamos aprimorando a ração, testando o que já há no mercado e trabalhando com uma empresa do setor de nutrição”, dizem. “Um peixe adulto pesa 5 quilos, com ganho de peso anual entre 700 gramas e 1 quilo.”

Para consolidar a cadeia produtiva do robalo no País, o próximo desafio é garantir a produção de alevinos para engorda. “Até pela complexidade do processo de reprodução em laboratório, o interesse do criador deverá ser na engorda. Portanto, temos de garantir o fornecimento, em escala comercial, de alevinos.”

Pintado e pirarucu salvos da extinção

Qualquer pesque-pague tem pintado; pirarucu vai pelo mesmo caminho

– A história do pintado, surubim ou cachara e também a do pirarucu, ambos peixes nativos do Brasil, pode servir de exemplo e estímulo para a cadeia produtiva do robalo. No caso do surubim,se hoje a reprodução em laboratório e a engorda em fazendas especializadas já são técnicas dominadas e pode-se comprar a espécie em qualquer pesque-pague, há 20 anos era algo impensável. “Na natureza, o pintado come outros peixes, tem hábitos noturnos e vive no fundo do rio”, diz o diretor-geral do Projeto Pacu, em Campo Grande (MS), Jaime André Brum, que, autodidata, foi o primeiro a desenvolver a técnica de reprodução e larvicultura do pintado, após noites em claro só observando e testando alimentos para alevinos.

“O pintado era um peixe caro e estava desaparecendo dos Rios Paraná e Paraguai e da Bacia Amazônica. A pressão sobre a espécie serviu de estímulo para meu trabalho, que foi totalmente empírico.”

Brum trouxe dos EUA um modelo técnico produtivo, e o adaptou para o clima brasileiro. De lá vieram também técnicos e as primeiras redes. “Até o domínio da tecnologia, foram pelo menos 17 anos.” Hoje a engorda é feita em tanques de 2 hectares, com menos de 2 metros de profundidade, e a alimentação e colheita dos peixes são mecanizadas.

A técnica de reprodução, hoje, é feita em laboratórios. A ração, à base de grãos e farelo de soja, foi desenvolvida em parceria com empresas do setor. O Projeto Pacu produz mais de 2 milhões de alevinos de pintado/ano. Cerca de 70% da produção de alevinos é engordada no próprio Estado, que produz em torno de 4 mil toneladas de pintado por ano.

NA AMAZÔNIA

A criação em cativeiro também pode salvar o pirarucu da extinção, que sofre com a pesca predatória, diz a coordenadora do Projeto Estruturante do Pirarucu da Amazônia, do Sebrae, Roberta Figueiredo. O projeto começou em 2007, com a instalação de unidades de engorda no Acre, Amazonas, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins. “O objetivo é desenvolver metodologia para tornar viável o cultivo do peixe até a comercialização”, explica.

Hoje, as 30 unidades de engorda produzem 50 toneladas de peixes, utilizadas por enquanto para pesquisas de mercado. Os alevinos são engordados em tanques escavados, tanques-rede ou açudes. A densidade varia e, segundo Roberta, ainda não se chegou a uma população ideal. Ela diz que todos os alevinos que entram nas unidades de engorda já vêm de criatórios. “Nossa unidade de Pimenta Bueno (RO) produziu, de dezembro a fevereiro, 70 mil alevinos.” Em três anos, o projeto disponibiliza 40 mil alevinos para venda, ao custo R$ 6/alevino com 10 centímetros.

Já há rações comerciais de boa qualidade. “Como o pirarucu é carnívoro, a ração tem de ter alto teor de proteína.” As informações de todas as unidades de engorda do projeto estão sendo reunidas e a previsão é de, em junho de 2010, publicar um manual de criação.

Espécie também pode se adaptar a água doce

Peixe entra em rios em busca de alimento. Institutos e universidades estudam melhor forma de fabricar ração

– Em Pariquera-Açu (SP), o Polo da Apta Regional do Vale do Ribeira, em parceria com a Associação dos Mineradores de Areia do Vale do Ribeira e da Baixada Santista, pesquisadores avaliam a engorda do robalo-peva em água doce. “O robalo se reproduz no mar, mas, por se adaptar em água doce, vai ao rio buscar alimento”, diz a pesquisadora Camila Fernandes Corrêa, que conduz o estudo com os pesquisadores Antonio Fernando Gervásio Leonardo e Leonardo Tachibana.

O estudo está voltado à alimentação do robalo e à estrutura de criação. “Avaliamos qual é a quantidade de ração ideal para a espécie, em quantas parcelas deve ser fornecida e se deve ser peletizada ou extrusada.” Com peixes comerciais, usa-se a extrusada, que flutua e permite ver se o peixe está comendo. O robalo, porém, não se alimenta na superfície.

VIVEIROS

Os alevinos vieram da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Hoje o polo conta com 500 peixes, em 5 viveiros escavados, além de 12 tanques-redes de 1 metro cúbico. Camila acredita que, em dois anos, será possível difundir a tecnologia. “O desafio é chegar a uma ração adequada e garantir oferta constante de alevinos.”

Para o coordenador do Centro de Produção e Propagação de Organismos Marinhos (CPPOM), da PUC-PR, Fabiano Bendhack, é importante que a cadeia produtiva do robalo se organize. “A demanda por alevinos é crescente e é preciso garantir que haverá ração suficiente. Sem planejamento, corre-se o risco de o robalo ficar com fama de peixe que não engorda”, diz. “Um desafio é aproximar indústria e pesquisa, pois não há no País fábrica de ração para peixe marinho.”

No Paraná, os robalos são alimentados com ração preparada à base de soja, trigo, farinha de peixe e óleo de soja ou de peixe. “Pegamos pesquisas internacionais com espécies parecidas com o robalo até chegarmos a essa formulação.” Os resultados têm sido bons. “Ele vai para o tanque-rede com 50 gramas, após 60 a 70 dias no laboratório; em 60 dias, está com 150 gramas.”

Bendhack destaca que fazer a reprodução do robalo não é viável para quem quer apenas engordá-lo. “É um processo caro, intensivo e que exige mão de obra qualificada.”

Em Guaratuba, no Litoral Sul do Paraná, Bendhack conta que a pesca predatória estava acabando com a espécie. “Em 2005 começamos o trabalho de repovoamento. Capturamos matrizes do ambiente, criamos alevinos em laboratório e soltamos animais juvenis na própria baía.” No laboratório do centro ficaram 25 mil alevinos para pesquisas. F.Y.

INFORMAÇÕES: Instituto de Pesca, idili@pesca.sp.gov.br

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2 Comentários

  1. bom dia amigos gostaria de saber como fazer a reproduçao do robalo tenho matriz de 3 anos de idade vc tem cursos….

  2. bom dia amigos gostaria de saber se voces tem elevinos de robalo pra vendo e preço pois tenho uns viveiros de peixe ja prontos e gostaria de criar o robalo agradeço desde ja………….

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