Mortandade de peixes no Rio de Janeiro pode se repetir nos próximos dois anos

Rio de Janeiro – As causas da mortandade de peixes na Lagoa de Araruama, na região dos Lagos (RJ) , há uma semana, ainda são investigadas. Segundo a prefeitura de um dos municípios afetados, o despejo de esgoto in natura no ecossistema pode ter provocado o incidente. O desastre ecológico resultou na morte de pelo menos 40 toneladas de peixes, mas as associações de pescadores calculam um volume bem superior, de 700 toneladas. Este é o terceiro ano que há mortandade na lagoa , e a Secretaria Estadual do Ambiente não descarta que isso venha a se repetir nos próximos verões.

O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) – órgão da secretaria –, aponta as chuvas e o lançamento de esgoto como prováveis causas do incidente. As duas concessionárias de água da região têm permissão para abrir as comportas e despejar esgoto sem tratamento na lagoa toda vez que estiverem operando acima da capacidade. Por causa do excesso de chuvas, a Prolagos – responsável pelo tratamento em três cidades – informa que teve de optar pelo procedimento, mas garante que o esgoto estava diluído na água e era a menor parte dos dejetos lançados na lagoa.

“Não tem jeito. Isso [a mortandade] pode acontecer por mais um ou dois anos”, afirma o presidente do Inea Luiz Firmino Martins. Embora captem toda a água das chuvas por meio do sistema de drenagem, Firmino explica que o contrato com as concessionárias só prevê o tratamento de esgoto em tempo seco. “Quando chove temos um excedente que não tem como ser tratado, que é despejado na lagoa.”

Na época da assinatura do contrato, lembra Marins, o modelo que teria capacidade para tratar tanto a água da chuva como o esgoto, chamado separativo, custaria muito mais caro e foi excluído. “Gastamos R$ 100 milhões com esse modelo [para tempo seco]. Com o separativo, gastaríamos dez vezes mais. Em vez de começar a atender logo a região e tentar recuperar a lagoa, estaríamos até hoje com apenas 10% da rede pronta por falta de recursos.”

Ainda assim, segundo ele, até o final de 2008, cerca de 40% do esgoto produzido nos sete municípios banhados pela lagoa eram jogados nela sem tratamento. “É claro que fazer a rede completa, separativa, está nos nossos planos, mas isso deve levar entre dez e quinze anos.”

Enquanto não há dinheiro para o modelo ideal, o consórcio responsável por administrar a lagoa – formado por governo, empresas e sociedade – investe em novas estações de tratamento em tempo seco e em melhorias para a lagoa, como a dragagem do Canal de Itajuru, onde devem ser investidos mais R$ 15 milhões até 2010. “A solução é fortalecer a lagoa para que não sofra um impacto grande como esse quando isso [a abertura das comportas] for necessário, porque não existe medida de curto prazo”, diz Martins.

Ao descartar a construção de um emissário submarino, o presidente do Inea informa que consta dos planos para a lagoa o desvio da água tratada para um rio, diminuindo a quantidade despejada na laguna – com a maior salinidade do mundo -, além da utilização do Canal de Monte Altos, ampliando a troca com o mar.

A água doce das chuvas, assinala Firmino, desequilibrou a lagoa salgada e causou, com o esgoto, a mortandade dos peixes. O nível de sal estaria baixo em Araruama, Iguaba e São Pedro da Aldeia – municípios mais afetados entre os sete banhados pela lagoa. A prefeitura de São Pedro decretou situação de emergência, na semana passada, para garantir indenização para cerca de dois mil pescadores afetados.

Muitos acreditam em uma tragédia anunciada. Em 2007 e 2008, houve mortandade de peixes. Segundo o vice-prefeito de São Pedro, Francisco Marcos Moreira, a quantidade nunca foi tão grande porque, além das melhorias na lagoa, o ano passado foi o primeiro a ter defeso para reprodução dos animais marinhos.

Moreira confirma que, com as chuvas e com o número de moradores quintuplicado, não há como tratar todo o esgoto. “As comportas foram abertas durante dois três dias.” Embora lembre que o incidente está sob investigação, ele acredita que os peixes morreram por asfixia em decorrência da proliferação de algas, que competem com os peixes por oxigênio.

Foi o esgoto que causou isso. A chuva tira a salinidade da água, mas não mata peixe. Pelo menos não de um dia para o outro”, afirma Moreira. “O peixe está acostumado com a salinidade do mar, quatro vezes menor que a da lagoa. O problema é que o esgoto cinco vezes acima do normal, despejado na lagoa, aumentou o teor de fósforo e coliformes fecais que produzem os alimentos para algas”.

Isabela Vieira
Repórter da Agência Brasil

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