Ser pescador é ser estúpido.


Sentados nos cabazes vazios, de olhar cabisbaixo e ombros descaídos por baixo das camisolas gastas pelo uso, dois pescadores aguardam que sejam ultimados os preparativos, no barco, para iniciar mais uma viagem ao mar.

Entre uma e outra passa no cigarro, vão comentando a vida, sem ânimo. Sucedem-se as recordações da dureza da profissão, o esforço de cada dia e a fraca remuneração. Por vezes, asseguram, o dinheiro ao fim do mês não dá, sequer, para comprar comida. Porque, apesar dos sucessivos anos de luta, os homens do mar não têm salários fixos. Recebem uma percentagem do que é pescado e, nos dias fracos que caracterizam a maior parte do ano, auferem muito pouco.


Afonso Val, pescador há 29 anos, não tem dúvidas “ser pescador é ser estúpido“.

Tal como muitos outros de Peniche, abraçou a vida da pesca muito cedo, por causa do “bichinho do mar“. Um sentimento que nasceu quando era ainda menino e nunca mais o largou.

É uma vida de sacrifício. Um trabalho duro que nem sempre é recompensado“, conta.

Trabalhamos a percentagens cada vez menores, a pesca é cada vez menos e vemos os peixes entrar, a preços com que não podemos competir, de Espanha, Rússia ou Marrocos“, sublinha.

Nos primeiros anos de profissão, o cenário era diferente. “Ganhava-se dinheiro e foi nessa altura que consegui construir a vida”, explica, contando ter uma filha, “já criada, graças a Deus, senão, com estes ordenados, não conseguia dar-lhe nada”.

Conta que, no Inverno, chega a receber “59 euros, por quinzena”. Por isso, “temos que ganhar em quatro meses (no Verão) para o resto do ano”.

Luís Jordão, pescador há 30 anos, assegura que, nos meses fracos, a média de ordenados é de “cinco euros por dia”. E lembra que, até ao ano passado, os pescadores recebiam uma parte do pescado, livre de impostos, a que chamavam “caldeirada”. Mas “foi retirada e deixou-nos a passar um mau bocado”.

Desanimados, os dois pescadores não vislumbram soluções para a crise que, dizem, está instalada no sector. “Ou paramos todos uns anos e deixamos crescer mais peixe ou mantemos a pesca como actividade turística, só para dar a conhecer aos turistas como se faz“, defendem.

Em Peniche, já houve 2.500 pescadores, dizem, contando que, hoje, serão menos de 500.

Fonte = Jornal de Notícias – Portugal

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